1. Nos dias de hoje não é fácil encontrar uma narrativa consequente para a promoção do empreendorismo. Em primeiro lugar, porque o termo tem um valor facial diferente de agente para agente, não se tendo conseguido uma ideia concertada, uma forma de olhar única, que suporte a sua teorização; Em segundo lugar, porque a ação política tem sido muito proclamatória.

Normalmente o termo empreendorismo vem agregado a competitividade. E essa competitividade é adesivada, unicamente, à nossa realidade produtiva. Porém, o empreendorismo não se vê só no tecido rendoso, tem, obrigatoriamente, um campo mais lato de intervenção, da educação à cultura, da investigação às artes performativas.

Há uns dias, um conjunto de instituições, com a prestimosa orientação da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, levou a efeito uma conferência sobre a matéria. Pela audiência e pelas conclusões poder-se-á dizer que atingiu os seus objetivos. Terá sido muito relevante, ainda, para as centenas de jovens que procuram um sentido para a sua vida com os problemas associados às crises graves que vivemos e à sua circunstância de longínquos habitantes dos centros de decisão.

A conferência careceu, porém, de uma outra difusão, porque a matéria tratada, o universo dos palestrantes e o sentido integrador que o programa continha eram de molde a um outro acompanhamento, em especial pela comunicação social especializada e nacional.

  

2. Vamos sentindo, pelas redes de informação e conhecimento, as novas ideias e os novos projetos que a criatividade vai fazendo nascer. Talvez o Douro, na sua grandiosidade, seja terra de portas largas e, por isso, muitas iniciativas se façam à vida.

O Jornal de Notícias de domingo, só na sua edição Norte (lamentavelmente) fazia publicar um conjunto de referências a projetos do Douro. Iniciativas ligadas ao marketing territorial, à promoção de produtos, à venda de programas turísticos, à promoção de atrações e de formações inovadoras, um agregado de jovens mostrava a sua realização e, principalmente, a sua vontade de não baixar os braços.

Os problemas estavam à vista, e remetiam-nos para os apoios dos agentes públicos e para a realidade distante da região. Mas o exemplo e a perseverança foram, na peça jornalística, marcas abundantes que podem contagiar outros jovens e outros empreendedores.

 

3. O Presidente da NERVIR deu nota recente da dificuldade por que passam as empresas da região. E fê-lo com uma tez dramática.

A região viveu durante décadas do peso do aparelho do Estado e dos serviços. A agricultura foi desvanecendo e o turismo não ocupou o seu espaço. A saída das aldeias para as vilas e cidades e as remessas dos emigrantes fizeram disparar a construção civil, numa atitude de pouca racionalidade. Ainda havia empresas que aqui se mantinham pela diferenciação positiva ao nível da carga tributária, mas essa excecionalidade também se foi com o Orçamento do Estado para 2012.

O Presidente da NERVIR dá, assim, nota do desespero, porque ninguém terá antecipado a realidade.

Há quem diga que ter razão antes do tempo é não ter razão. Somos levados a pensar que essa consideração tende a ser correta. Mas sempre diremos que, em 1993, em 1997, em 2001 e em 2005, por ocasião das disputas autárquicas, o que estava em causa era o modelo de desenvolvimento seguido e a urgência na criação de uma alternativa que concorresse, a nível nacional e ibérico, para a captação de investimento e de empregos. Vivemos à sombra da bananeira e chegamos a um ponto de paragem. O passado já se extinguiu. Mas o futuro pode, ainda, ser construído, com sacrifício mas com imaginação. Há jovens que não se quedam, e a região não está destinada ao fracasso.    

 

® 2012.05.17 – ALSS


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Uma traição fatal

Na conversa doméstica, a vida dos espiões circula entre relatórios enviados para agentes políticos; informação dada, sem nexo, a empresas; saídas e tentativas de reentrada nos serviços de informações. É uma novela de pouca categoria que pode dar nota errada da importância dessas informações, e dos serviços de inteligência, para a soberania e para a segurança de um país. Tudo coisa piquena, tudo insignificante!

Esta circunstância doméstica estava na nossa cabeça no momento em que nos sentamos para ver as duas horas do filme “Uma traição fatal”.

A película tem pouco de relevante. Nem o enredo, já tratado por muitos, nem os protagonistas, nem a banda sonora ou a fotografia. Um normal guião, que também não deixa muito mal quem o protagonizou.

Há quem tenha apelidado o thriller de “alta tensão”. Nós discordamos. Em nenhum momento a arte nos faz agarrar à cadeira e em nenhum ponto somos projetados para uma opção de saída. Steven Soderbergh não foi tão longe quanto tinha ido em Contágio, há um ano atrás, e ficamos com a sensação de que há aqui um replicar de argumentos pouco sugestivo.

Ter António Banderas ou Michael Douglas, no elenco, poderia ser uma garantia. Nada! Nem um, nem outro, se apresentam de forma a poderem reter, no seu currículo, a passagem de “Uma traição fatal”.

Sobra, nesta linha, Mallory Kane, a inteligente e interessante Gina Carano, que se mostrou em forma, capaz de conter avanços graves de outros agentes secretos. Perante a inevitabilidade de ter que aceitar trabalhos para além dos integrados em funções de Agência do Estado, ela é apanhada numa trama que mostra o quão fácil é a passagem da licitude para a ilegalidade, neste universo de operações.

Salva um dissidente chinês, entrega-o a quem deveria, mas é ela própria denunciada na morte posterior do raptado. Salva-se de todas as artimanhas que o seu patrão, e antigo namorado, lhe manda colocar, ele que detentor de uma agência privada, o que só é possível em países doentes, e consegue, ela, com a ajuda do pai, eliminar toda a “frota” de energúmenos da sua antiga ceita.

Douglas, a quem resta o papel institucional de espião de liança, encontra para Mallory uma proposta final, oferecimento que a recuperaria para a normalidade, mas o texto deixa a porta aberta para outras opções…

Enfim, um filme que não nos faz prolongar a tramação, mas também não nos faz voltar a vê-lo!

 

® 2012.05.15 – ALSS  


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Há uma regra que os políticos, há muito tempo em funções,  sempre aprendem. Trata-se de fazer desviar as atenções de um problema potencialmente grave, para um problema que até então não existia ou era, ainda, menor. Esta prática, em círculos mais elaborados, é desenvolvida por spin doctors, a quem se pede para imaginarem soluções progressivas de ilusionismo manipulador.

Terá sido o caso de uma estranha tirada, propalada nestes dias, pelo Presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses.

Há meses em negociações com o Ministério da Saúde, sem resultados que se vejam e sem uma solução para os graves problemas que se colocam às Associações Humanitárias de Bombeiros, o Presidente Jaime Soares desanda e bate na Autoridade Nacional de Proteção Civil. Exige vassourada, porque, diz, há gastos a mais e atitudes burguesas! Uma esticada marxista, mesmo que, na sua cabeça, o marxismo não subsista…

O Presidente Jaime Soares é uma personalidade interessante. Porque é fruto de um país que existiu, mas já se extinguiu, e também ele se vai extinguindo. Só que ainda não terá dado conta.

Os bombeiros portugueses vivem problemas graves. E poucos desses problemas se prendem só com a Autoridade Nacional de Proteção Civil.

O primeiro problema é o que se liga com o abandono do voluntariado. Em muitos concelhos há uma dificuldade grave de disponíveis para a ação do socorro. E torna-se difícil promover uma prestação cuidada aos cidadãos, sem que exista uma perspetiva de sustentabilidade humana nos Corpos de Bombeiros; O segundo problema é o que se prende com a realidade profissional dos CB’s. Em Portugal já quase não há CB’s Voluntários, havendo mistos e profissionais; O terceiro, é a realidade da quadrícula, com mais Associações Humanitárias do que aquelas que o país poderá comportar, e sem que alguém tivesse avançado, para o uso da previsão legal, fazendo nascer os agrupamentos de associações; O quarto problema é o que se prende com a salgalhada estrutural de algumas AHB’s, onde convivem negócios de transporte de doentes, com emergência médica, com proteção e socorro, com serviços gerais, com serviços de representação, com prestação de serviços de saúde e com promoção de atividades físicas. Ora, não sobra tempo para que se ponha um ponto de ordem nesta realidade de “caixas permeáveis” que recebem apoios de muitos sítios e que ninguém, ou muito poucos,   entendem.

Ao nível dos Corpos de Bombeiros, chegamos a um momento em que detetamos problemas de “massa crítica”, que podem por em causa o bom desempenho, em cada uma das ocorrências. Apesar de ter havido uma tipificação ao nível dos comandos, ela não passa para a constatação da realidade inalienável de uma indispensável progressão para “forças conjuntas”, previsão inserta no atual estatuto e que ninguém ousou fazer avançar. Há ainda a realidade da formação dos bombeiros, numa perspetiva nacional e local. Se a Escola Nacional de Bombeiros carece de uma nova linha de ação, não é menos verdade de só em cerca de 25% dos corpos se verificam planos de formação integrais.

O Presidente Jaime Marta Soares não olha, de forma cuidada, o universo que diz representar. Mas olha só para que pode ser mais público. Ele não simpatiza com a estrutura de comando da ANPC, porque não manda nela; Ele não simpatiza com a figura de Comandante Operacional Municipal porque, sendo ele o único Presidente de Câmara, que é também Presidente da Liga e Comandante de um CB, não pode mandar em 308 COM’s; Ele não simpatiza com os CODIS atuais, mesmo alguns próximos, porque não manda neles; Ele não simpatiza com operacionais do GIPS da GNR, porque não manda neles; Ele não simpatiza com a Força Especial de Bombeiros – Canarinhos, porque não manda neles; Ele não simpatiza com a projeção de forças para teatros decorrentes de catástrofe, porque não manda nelas. Bem, o problema é que a sua relação, com uma proteção civil moderna, é má, porque ele gostaria, e muito, de mandar nela. Só que já não consegue ter uma leitura hodierna das exigências…

A atual estrutura nacional e distrital da Proteção Civil carece de ponderação. Mas a realidade dos riscos não pode ser eliminada e a visão “holística” da resposta não pode, não deve, ser abandonada. Competirá, sempre, à estrutura da Proteção Civil uma coordenação institucional e um comando operacional (como se se tratasse de uma intervenção semelhante à das forças das Nações Unidas, que recebem o contributo de muitos corpos e estruturas) e, para isso, não se pode, não se deve, fragilizar a componente operacional da ANPC. A estrutura da ANPC é económica, porque a ausência de um comandante, num teatro de operações, num qualquer parque natural, sairá mais cara, ao património e ao orçamento do país, do que os salários de todos os operacionais da mesma ANPC.

Jaime Marta Soares falou, mas ainda não ajudou a resolver o problema do transporte de doentes e da grave situação em que se encontram as AHB’s; Jaime Marta Soares falou, sem que apresentasse uma proposta de Programa de Financiamento dos CB’s, com pés e cabeça; Jaime Marta Soares falou, mas ainda não apresentou uma proposta concreta para a autonomia técnica da Direção Nacional de Bombeiros; Jaime Marta Soares falou, sem pensar que a Proteção Civil é hoje uma coisa bem diferente do que era há dez anos. E se alguém quiser voltar a reinventar a roda pode fazer regressar a anarquia, e voltará a ser Portugal quem perderá.

Felizmente o Ministro Miguel Macedo é conhecedor do país e antecipador dos bons futuros. Como se viu no novo estatuto da GNR, que reuniu inovação e ponderação!

 

® 2012.05.14 – ALSS

Post relacionado : “O comandante não fala” | 22.06.2010

 


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O princípio da autonomia do Poder Local, inserto na Constituição da República Portuguesa, prevê a irreversibilidade da transferência de atribuições e competências. Quer isto dizer que, o processo de translação de responsabilidades, que se verificou desde 1977, deverá ser avaliado e consolidado, sem se por em causa o seu melhor desempenho, no respeito pela subsidiariedade.  

Acontece que os diversos níveis institucionais não incorporam esta realidade programática, continuando o local a agir de forma a que o central seja, sempre, o meio de recurso em tempo de crise, e o central a agir de forma a que o local seja progressivamente capturado na sua ação concreta.

Estes últimos trinta anos deixaram observar três estados de espírito dos portugueses, quanto aos autarcas e às autarquias. O primeiro, como amiudadas vezes dissemos, foi o tempo dos cabouqueiros, com insuficientes recursos e com elevadas responsabilidades. Este tempo vem de 1977 a 1984, entre a primeira lei de atribuições e competências e a seguinte.

O segundo, vem de 1984 a 1987, e é o tempo em que, fruto das transferências dos fundos estruturais se foram consolidando as redes de equipamentos e infraestruturas. Desde 1987 que, com a quase duplicação dos recursos transferidos do OE e com o nascimento de novas realidades políticas, os autarcas entraram num processo de enfraquecimento da sua imagem. Olhando a despesa municipal e as realidades orgânicas, é fácil verificar que estes 15 anos foram um dano que vai ser difícil corrigir.

Nos últimos dias os autarcas, e a sua associação, têm vindo a promover uma “guerra surda” ao governo, a propósito do IMI e das percentagens a reter pela Autoridade Fiscal e Aduaneira, na reavaliação dos imóveis e na cobrança. Esta guerra é mínima, uma vez que há muitas questões que careceriam de uma discussão mais profunda e que se encontram esquecidas.

Mas olhando as receitas municipais, temos que considerar que o IMI é, em muitos municípios, um contributo significativo para o orçamento. O que não consideramos muito normal e lógico é a falta de reivindicação, por parte dos municípios, de uma transferência definitiva da cobrança, de todas as taxas e de todos os impostos municipais, para o universo dos serviços municipais. E esta transferência é urgente, para que a AFA se possa dedicar, com mais afinco, ao combate à fraude e evasão fiscais.

Por tudo isto, só é possível concluir que a Associação Nacional de Municípios se encontra numa fase decisiva da sua vida. E que se espera que, com a renovação dos eleitos, a partir de 2013, possa nascer uma outra energia e uma outra atitude, mais moderna e inovadora, que contribua para duas linhas de política: 1ª Purificar o poder local; 2ª Reduzir o impacto deste nível de poder na despesa pública nacional. Vamos ver!

 

® 2012.05.11 – ALSS    


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1. A Assembleia Municipal de Vila Real aprovou, por maioria, a proposta de atribuição da Medalha de Ouro da Cidade ao Senhor Presidente da Câmara Municipal.

Trata-se de uma decisão acertada, uma vez que ela releva o contributo do atual presidente do município nas muitas décadas de serviço à coisa pública, nestas mais de três décadas de funções autárquicas e nestes dezoito anos de liderança municipal.

A votação obtida não foi, contudo, muito cautelosa. Terá havido deputados municipais que avaliaram a proposta pela leitura regulamentar e por isso estes terão entendido, de forma correta, que deveria ser o executivo a aprovar a distinção.

Mas num momento tão excecional, como aquele que a Assembleia Municipal estava a viver, teria sido muito relevante que se sublimassem as magnas questões de decisão, não reclamando burocracias ou referindo normas administrativas.

Vila Real atribuirá, assim, num próximo momento, o mais alto galardão ao edil que mais tempo esteve no cargo e, por sucessivas eleições democráticas e livres, mais tempo governou esta capital de distrito.

O acontecimento está, porém, recheado de simbolismo. Diremos mais, está recheado de renunciação.

As eleições autárquicas serão em Outubro de 2013, um ano e meio depois da reunião que promoveu a atribuição da medalha. E como acontece em todas as olimpíadas, as medalhas são o culminar de uma prova. A partir de agora, os cidadãos de Vila Real olharão para o seu presidente, e injustamente, como tendo terminado a sua prova.

Teria sido isto que o Dr. Manuel do Nascimento Martins teria pensado? Terá sido, este tempo de desagregação, que se tornará inevitável a partir de agora, pensado pelos políticos no ativo que discutem as coisas da rés pública local?

Como cidadão vila-realense, aqui pregado ao chão, espero que o Senhor Presidente da Câmara se não deixe vencer pelas dinâmicas do tempo que sobra…

2. Enquanto isto o Município publicou as suas contas relativas a 2011. Lidas à primeira vista poderíamos pensar que a câmara segue, temporã, na boa gestão. Moderados custos, dívida aparentemente comportável, pagamentos médios aceitáveis!

Mas há coisas que não batem certo. Havendo as apregoadas folgas orçamentais o que impede que se termine a Central de Camionagem? O que impede que se termine o edifício que deveria ter sido Centro de Logística, havendo quem pense que pode vir a ser Centro de Saúde, na Av. 1º de Maio? O que impede que se ataquem os maus pisos das muitas vias municipais em estado de sítio?

Das duas, uma: – ou os números da Câmara Municipal são para embarricar, ou os autarcas gestores desistiram de concluir as obras, ponderando, pelas certezas, estes projetos. Talvez os nossos concidadãos já não peçam que se avance para nova obra, mas talvez desejassem, com toda a convicção, que se concluíssem as que se encontram ao desabrigo, até porque a sua recuperação custará sempre mais do que o orçamentado…

3. Por fim, não esquecendo a atribuição da medalha de ouro da cidade por muitos anos de funções, deixo uma recordação.

Quando, em 1993, se deu a mudança presidencial municipal, o edifício do Parque Florestal estava construído em estrutura e abandonado pelo proprietário. Dezoito anos depois, o mesmo edifício está lá, na mesma situação, sem que se tenha cumprido qualquer objetivo, qualquer destino. Com muita pena minha esta é uma medalha que a cidade não deveria continuar a ter. Faça-se luz e resolva-se a pendência até Outubro de 2013.

® 2012.05.10 – ALSS

Artigo publicado em A Voz de Trás-os-Montes nesta  data.


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Pela sua história a Fundação Gulbenkian não terá qualquer problema com o país. Mas o país tem, e vai ter em crescendo, um problema com esta Fundação.

Sabemos que ela não carece de recursos públicos, que o capital fundador e as participações que detém e que, para já se não depreciaram, continuam a ser suficientes para a sua manutenção. Mas há sinais de alerta que importa ter em conta, uma vez que, o Estado Português lhe concedeu direitos que a obrigam a uma obrigatória parcimónia na sua gestão.

Há uns dias soubemos de uma substituição, a do Presidente, o quarto desde Azeredo Perdição, que deu lugar a Artur Santos Silva. Trata-se mais de uma rodagem de cadeiras, uma vez que Rui Vilar só sai da presidência para ser administrador cooptado, mantendo uma importante influência.

Olhamos o Conselho de Administração e reparamos que ele é uma espécie de Amigos de Alex, francófonos datados, com sensibilidades estéticas semelhantes, com uma cabeça feita olhando um país inexistente. Lá estavam, ainda, Diogo de Lucena, Isabel Mota, Eduardo Marçal Grilo, Teresa Gouveia e Martin Essayan, acompanhados dos não executivos Eduardo Lourenço, André Gonçalves Pereira e Emílio Rui Vilar.    

Martin Sarkis Essayan é bisneto de Calouste Sarkis Gulbenkian e administrador da Fundação Calouste Gulbenkian desde 2005, tendo sucedido ao seu pai na responsabilidade pelos pelouros da Delegação do Reino Unido em Londres e do Departamento das Comunidades Arménias da Fundação Calouste Gulbenkian. Martin é o mais novo dos membros do CA da Fundação, que andará com uma média de idades superior a 65 anos.

Eduardo Lourenço tem 88 anos e uma vida cada vez mais parisiense e André Gonçalves Pereira tem 76 anos e está cada vez mais desligado da vida académica e da advocacia. Mesmo com um longo percurso, está chegada a hora de darem lugar a novos e afirmados protagonistas, como, por exemplo, António Damásio ou Pedro Burmester, entre outros com elevado prestígio internacional.

A FCG, com Artur Santos Silva, continuará a ser o que foi nos últimos anos. Isto porque ASS já comprovou estar pouco interessado, nesta fase da vida, em fazer mudanças. Mas elas seriam necessárias.

A Fundação precisa, urgentemente, de captar os públicos abaixo dos 50 anos. Quem cumpre as temporadas da música erudita, quem acompanha o coro, quem lê as propostas estéticas no campo das artes plásticas, quem segue os apoios à criação, quem repara nas políticas de fomento da investigação e da ciência, desconfia que o reme-reme se instalou e falta imaginação, novidade, e até “mundo”, para sair e buscar novas apostas.

Estamos atentos, há mais de 25 anos, à atividade da instituição. Somos frequentador dos diversos níveis de programas e das diversas apostas culturais, e reparamos que até os espaços da fundação vão envelhecendo sem cuidados e sem renovações. A FCG precisa de novos ares.

Nestas mudanças que estão a acontecer, ficamos admirados com o facto de não se falar de António Guterres. Seria uma mais-valia para a fundação e traria, com ele, novos olhares e novas propostas. Talvez nunca ninguém lhe tenha falado, ou talvez esteja tão emprenhado, na sua atividade internacional, que não tenha tempo para pensar nesse futuro.

De todas as figuras relevantes da nossa sociedade só ele daria um grande presidente, e daria, também, uma nova vida à FCG.

 

® 2012.05.08 – ALSS 

 


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Em Novembro passado participamos numa pequena reunião onde um conjunto de personalidades, ligadas ao setor do vinho e da vinha, tiveram a possibilidade de expressar as suas opiniões sobre o futuro do setor.

O universo dos presentes tinha as suas preocupações na melhoria dos métodos de produção e de transformação e ainda nas opções de internacionalização. Estas serão, diremos nós hoje, as preocupações de muitos dos produtores das regiões vitivinícolas que o país comporta.

Advindo da Região Demarcada do Douro, só nós nos encontrávamos para conceder opinião sobre ela, e foi com um sentimento de profundo desgosto que constatámos a forma pouco amistosa como o Douro foi tratado pelos demais presentes.

Tivemos, nessa altura, a oportunidade de despender a nossa opinião sobre o futuro da Região e com agrado constar, no final, a nova atenção dos presentes.

A nossa intervenção fundou-se em cinco pontos centrais de política:

  1. A necessidade de se promover a criação de uma Comissão Vitivinícola Regional que assegure as atribuições no universo das denominações de origem Douro e Porto, que receba as competências de entidade certificadora previstas no Decreto-Lei nº 212/2004, de 23 de Agosto, que promova a concertação entre produtores e comercializadores e assuma a função de promotor. Para tanto, deveria ser extinto o Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto, IP, deveriam ser transferidas todas as responsabilidades de proteção e defesa das denominações e asseguradas as atribuições no âmbito dos subprodutos resultantes da produção vitivinícola para a nova CVR. As competências contraordenacionais deveriam ser repartidas com o Instituto do Vinho e da Vinha, IP.
  2. A necessidade de se encontrar uma solução definitiva para a Casa do Douro, resolvendo de vez, e levando a perdas, as dívidas existentes que não sejam cobertas pelas garantias existentes e promovendo a integração, nos quadros públicos, dos colaboradores da mesma, com vínculo definitivo, e admitidos até 2003. Ao mesmo tempo, se deveria promover a eliminação das responsabilidades públicas ainda determinadas por lei e a transformação definitiva da instituição em associação de direito privado e de livre inscrição.
  3. A necessidade de se determinar uma alteração do Código Cooperativo que promova a determinação de limitações de mandatos, a verificação da legalidade através de prestação de contas pública, a garantia de rácios de gestão que garantam a liquidação dos produtos vínicos, a preços médios, a todos os fornecedores das adegas cooperativas, sejam eles cooperantes ou não.
  4. A necessidade de se determinar a realização de uma auditoria a todas as adegas cooperativas da região, garantindo a defesa dos cooperantes e o interesse público que está subjacente à criação das adegas cooperativas, de se determinar um progressivo “emparcelamento” institucional das atuais cooperativas bem como a alocação de recursos do PRODER para o equilíbrio da transformação, da garantia de escala nessa transformação e da afirmação de uma imagem completa.
  5. A necessidade de se promover a integração da Região Demarcada do Douro com as realidades turística, cultural e de promoção territorial, assumindo-se a progressiva uniformidade de coordenação de todas estas políticas. Para isso, deveria a Unidade Missão do Douro deixar de ser uma entidade de “despesa” para ser uma entidade política partilhada entre a administração central e a administração local.

O Douro sofre uma das mais profundas crises de que há memória. Também estão em crise os modelos de desenvolvimento que, nos últimos trinta anos, se alicerçaram na despesa infraestrutural. Importa que saibamos caminhar para uma nova responsabilidade. Para que essa responsabilidade possa existir há que fazer nascer novos protagonistas. Isso acontecerá, inevitavelmente, em 2013 no universo do poder local. Mas teremos que provocar a mudança ao nível das lideranças no universo vitivinícola e ao nível do universo institucional regional. Se assim não for, a RDD aprofundará a crise, promoverá o abandono da população e olvidará o património da humanidade, feito de muros e de uma realidade patrimonial em desaparecimento.

® 2012.05.07 – ALSS      

Nota: Nos últimos dias apareceram notícias sobre a situação da RDD. E o que se pode constatar é que muitos dos políticos no ativo não sabem do que falam. Aguardamos a apresentação das iniciativas legislativas…

 

 


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